Manifesto colectivo de louvor à coreógrafa Madalena Victorino
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A Madalena Victorino deixou de caber no Centro Cultural de Belém
Manifesto colectivo de louvor à coreógrafa Madalena Victorino
Estudou técnica de Dança Contemporânea na London School of Contemporary Dance (1974-1977) e licenciou-se em Pedagogia da Dança na Universidade de Londres, Goldsmith's College 1, Laban Centre for Movement and Dance , em 1980. Participou na organização dos currículos dos bacharelatos da Escola Superior de Dança de Lisboa, onde leccionou três anos, abandonando-a em 1989 em rotura com a visão anacrónica da Arte proposta pela escola. Depois da formação desenvolvida no estrangeiro, desde que regressou a Portugal dedicou-se apaixonadamente à introdução e desenvolvimento da Dança na Comunidade, numa visão que propõe a Dança "como movimento humano e não como uma mestria muito especializada" só acessível a alguns.
Em tudo o que faz introduz uma nova vibração e espaços de possibilidade para um país melhor e isto quer a nível individual quer institucional. A nível individual, sublinhe-se o trabalho com as pessoas das aldeias de Viseu nos anos 80, a experiência que propicia a quem participa no seu projecto coregráfico "Caruma" ou a promoção da fruição intensa da Arte que torna acessível a uma criança que vai ao CCB. A nível institucional, quando ensaia novos modelos de formação profissional em estruturas como o Fórum Dança, nos novos modelos de formação artística contínua e pontual para escolas cujo enquadramento teórico desenhou, ou nos novos modelos de formação de públicos (de que o CPA é emblemático) e novos modelos de programação cultural, como foi o exemplo do Percursos que, para além de Lisboa, envolveu Viseu, Coimbra e Évora questionando os formatos de implementação da descentralização cultural.
De uma enorme generosidade, sempre disponível para apoiar projectos alheios, tem uma capacidade invulgar de aceitar e transformar a realidade, envolvendo-se empenhadamente em grandes desafios. Há 12 anos aceitou o convite para trabalhar num departamento com uma designação que abomina - Pedagogia e Animação- e que, segundo ela, é aquele que "as pessoas têm a mania de dar a tudo o que tenha a ver com crianças". Rapidamente o transformou num espaço de relação intensa das crianças e jovens com a Arte Contemporânea e, por via desta, com a vida e com a aprendizagem mais profunda que é a constituição do cidadão: o indivíduo com saber e capacidade de intervenção na realidade que o cerca.
Todo o seu trabalho, desde a criação à programação, enraíza numa visão profundamente democratizante da Dança e da Arte, tendo em vista um desenvolvimento individual e colectivo da sociedade. É esta visão aliada a uma imensa capacidade de gerar dinâmicas a vários níveis - junto dos seus alunos, no seio da comunidade artística, no seio das estruturas independentes, no seio de uma instituição pesada como o Centro Cultural de Belém - que explica o trabalho único e de inestimável valor que Madalena Victorino tem oferecido a um país (sempre) demasiado pequenininho para as pessoas da sua estatura.
A Madalena Victorino deixou de caber no CCB e demitiu-se.
O CCB perde assim a sua alma cortando irremediavelmente as pontes de proximidade com as pessoas. É uma grande perda para um país. Perda sobretudo para os que, arredados dos circuitos culturais de qualidade, carecem de pessoas sábias que abram portas.
Num momento da política europeia em que a Cultura passou a ser reconhecida como o motor da identidade na diversidade e em que o espaço dedicado à pessoa começa a ser muito valorizado, o CCB investe cada vez mais nos mega-acontecimentos de impacto imediato junto das massas, refugiando-se num circuito cristalizado e banal.
Todos os que conhecemos o percurso da Madalena Victorino, que usufruimos, directa ou indirectamente, do seu trabalho, temos agora capacidade para a acolher, apoiar e continuar a potenciar o que já fez, mas não queremos deixar de manifestar publicamente o nosso júbilo e agradecimento por continuar a haver pessoas que, como a Madalena Victorino, conseguem continuar a ser (apenas) elas próprias.
CENTA [Centro de Estudos de Novas Tendências Artísticas]
Tapada da Tojeira, Salgueiral
6030 006 Vila Velha de Ródão
Telf. 272 541 108 Fax 272 545 314
centa.info@gmail.com
centa-tojeira.blogspot.com
[Membro fundador da REDE associação de estruturas para a dança contemporânea]
Manifesto colectivo de louvor à coreógrafa Madalena Victorino
Estudou técnica de Dança Contemporânea na London School of Contemporary Dance (1974-1977) e licenciou-se em Pedagogia da Dança na Universidade de Londres, Goldsmith's College 1, Laban Centre for Movement and Dance , em 1980. Participou na organização dos currículos dos bacharelatos da Escola Superior de Dança de Lisboa, onde leccionou três anos, abandonando-a em 1989 em rotura com a visão anacrónica da Arte proposta pela escola. Depois da formação desenvolvida no estrangeiro, desde que regressou a Portugal dedicou-se apaixonadamente à introdução e desenvolvimento da Dança na Comunidade, numa visão que propõe a Dança "como movimento humano e não como uma mestria muito especializada" só acessível a alguns.
Em tudo o que faz introduz uma nova vibração e espaços de possibilidade para um país melhor e isto quer a nível individual quer institucional. A nível individual, sublinhe-se o trabalho com as pessoas das aldeias de Viseu nos anos 80, a experiência que propicia a quem participa no seu projecto coregráfico "Caruma" ou a promoção da fruição intensa da Arte que torna acessível a uma criança que vai ao CCB. A nível institucional, quando ensaia novos modelos de formação profissional em estruturas como o Fórum Dança, nos novos modelos de formação artística contínua e pontual para escolas cujo enquadramento teórico desenhou, ou nos novos modelos de formação de públicos (de que o CPA é emblemático) e novos modelos de programação cultural, como foi o exemplo do Percursos que, para além de Lisboa, envolveu Viseu, Coimbra e Évora questionando os formatos de implementação da descentralização cultural.
De uma enorme generosidade, sempre disponível para apoiar projectos alheios, tem uma capacidade invulgar de aceitar e transformar a realidade, envolvendo-se empenhadamente em grandes desafios. Há 12 anos aceitou o convite para trabalhar num departamento com uma designação que abomina - Pedagogia e Animação- e que, segundo ela, é aquele que "as pessoas têm a mania de dar a tudo o que tenha a ver com crianças". Rapidamente o transformou num espaço de relação intensa das crianças e jovens com a Arte Contemporânea e, por via desta, com a vida e com a aprendizagem mais profunda que é a constituição do cidadão: o indivíduo com saber e capacidade de intervenção na realidade que o cerca.
Todo o seu trabalho, desde a criação à programação, enraíza numa visão profundamente democratizante da Dança e da Arte, tendo em vista um desenvolvimento individual e colectivo da sociedade. É esta visão aliada a uma imensa capacidade de gerar dinâmicas a vários níveis - junto dos seus alunos, no seio da comunidade artística, no seio das estruturas independentes, no seio de uma instituição pesada como o Centro Cultural de Belém - que explica o trabalho único e de inestimável valor que Madalena Victorino tem oferecido a um país (sempre) demasiado pequenininho para as pessoas da sua estatura.
A Madalena Victorino deixou de caber no CCB e demitiu-se.
O CCB perde assim a sua alma cortando irremediavelmente as pontes de proximidade com as pessoas. É uma grande perda para um país. Perda sobretudo para os que, arredados dos circuitos culturais de qualidade, carecem de pessoas sábias que abram portas.
Num momento da política europeia em que a Cultura passou a ser reconhecida como o motor da identidade na diversidade e em que o espaço dedicado à pessoa começa a ser muito valorizado, o CCB investe cada vez mais nos mega-acontecimentos de impacto imediato junto das massas, refugiando-se num circuito cristalizado e banal.
Todos os que conhecemos o percurso da Madalena Victorino, que usufruimos, directa ou indirectamente, do seu trabalho, temos agora capacidade para a acolher, apoiar e continuar a potenciar o que já fez, mas não queremos deixar de manifestar publicamente o nosso júbilo e agradecimento por continuar a haver pessoas que, como a Madalena Victorino, conseguem continuar a ser (apenas) elas próprias.
CENTA [Centro de Estudos de Novas Tendências Artísticas]
Tapada da Tojeira, Salgueiral
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