Aos Justos, As Pimentas

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    Seres Humanos
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Em sua festa de aniversário, Júlia Basso recebeu de presente um lindo pé-de-pimenta. Demonstrando sua inaptidão para o trato com a natureza, negligenciou-o por várias semanas, esquecendo-o em minha casa, fato que na jurisprudência mais abalizada caracteriza o "usucapião extraordinário de ser vivo dependente da ação humana". Assim, premido pela consciência moral e protegido legalmente, assumi a responsabilidade e cuidei da planta, aclimatando-a para o transplante em um terreno amplo e propício para o seu hiperdesenvolvimento, sua transformação em um prodígio imemorável na produção de pimentas.







Surpreendentemente, Júlia súbito lembrou-se da "coisa presenteada" e se fez legítima proprietária, ignorando o fato de que se a planta tivesse permanecido sem cuidados, estaria morta. Ali, ressuscitando o vegetal em seu ímpeto materialista, requereu a devolução, argumentando que "se você mata galinhas para comer, não posso torturar pimenteiras?". Falaz verborragia! Ignominiosa dispnéia retórica! Inaceitável imperativo da desrazão!







Se tais intentos brutalizadores se concretizarem, de uma Quinta-da-Boa-Vista, com possibilidades para se arvorar numa sequóia do Mundo das Pimentas, a pimenteira será mantida em seu pequeno vaso e levada a um apartamento exíguo, sem ar fresco, luz solar e solo fértil em quantidade e qualidade suficientes para o pleno desenvolvimento de seu potencial titânico, de seu gigantismo mamútico e mesozóico. Imaginem a cena! Deixada a um canto do box do banheiro, consumida pelos bolores do esquecimento, entremeada de sabonetes e cremes de beleza, sua vida reduzida será um mero ornamento da vaidade humana, da senilidade precoce carente de deleites visuais!







É por isso que clamamos pelo seu apoio e de tantos quantos puderem saber desse verdadeiro arbítrio da maldade. Vida longa às pimenteiras! Justa perda aos assassínios do bom senso!